segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um Conto Sobre a Sinestesia (Parte 1)

Por: Zappa Boy 


Em um dia quente de outono, quando as folhas em tom de sépia costumam sentir o que antes do século XVII não era mensurado, por nenhum inglês, um garoto, com um dom, uma habilidade que ele, por desconhecer o vasto potencial da genética, acreditava que era o único a possui-la, brincava e quase que não exatamente podia sentir cada uma, cada penca, caindo, e formando algo que em sua cabeça era imediatamente interpretado como um sonido, aleatório e extremamente arbitrário. Em um breve momento, de um dia qual quer, onde o vento parecia esquadrinhar na relva recém nascida uma, uma modinha que escutara aos 5 anos viajando com sua mãe para a cidade central, onde festividades no final de cada colheita eram feitas, não foi passada despercebida, quase que em um único instante, como acaso, como, pura inspiração da natureza.


Engraçado achava ele, medo, e um pouco de desconfiança era exatamente o que sentia todas as vezes que, degustava, apalpava, olhava uma canção feita dos mais diferentes instrumentos que nenhum artesão, por mais habilidoso que fosse, poderia esculpir. Adorava o gosto da chuva no fim da tarde, quando o sol estava em seu tom mais alaranjado, e gotejava na superfície do lago, apesar de por muitas vezes ter provado, no canto de sua boca, com uma leve passada de sua língua, enquanto corria para se abrigar em um velho carvalho na frente de sua casa, o gosto não se assemelhava nem um pouco, como o que sentia quando os pingos alcançavam o topo de sua cabeça, Para ele era uma confusão de sentidos, tão espetacularmente individual, que por muitas vezes ria de canto de boca, quando o tempo mudava. 



Quando seu pai lhe dirigia a palavra, sentia, dentro de si, não existia exatamente um lugar especifico, mas ficava mais forte quando se concentrava, parecia vir do centro do seu corpo, ele sabia, que independentemente do que realmente era dito, la no fundo, uma torrente de pequenos filetes das mais variadas cores, mas predominantemente em tons de marrom e verde musgo, atravessavam seu corpo como alabardas afiadas, tons que seus instintos lhe ensinaram quase que imediatamente a não confiar. Isto dava a ele uma percepção tão diferente do mundo que o rodeava, tão mais abrangente, que ele era um caçador, uma cobra na escuridão, onde todos eram cegos, ele poderia enxergar como dia, mentiras em seus tons de roxo escuro, discórdia cinza, ódio marrom, falsidade vede escuro, e tantas mais... [Continua]


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