Por: Zappa Boy
Em uma sexta-feira de fevereiro, assim lembrava, e se culpava por não ter tanta certeza, enquanto cortara lenha na frente de sua casa, entre um balanço feito de cordas náuticas azuis e uma taboa que o garoto tinha certeza que viera da mesma embarcação, e o caminho de ladrilhos que os anos trataram de encardir em um curioso padrão que sugeria uma pequena ave. Entre os sons de talhe que escapavam através da lâmina de seu velho machado, visto por ele como flashes amarelos, sem contexto a cada golpe, ao mesmo tempo ao longe, e gradativamente ele conseguia ouvir algo que se parecia muito com um ranger, um chiar que era comum de maquinas com partes moveis feitas de metal, muitas vezes o garoto ouvira tal sinfonia desconexa, mas desta vez era diferente, as formas, e o movimento eram iguais aos que ele esperava, porém as cores não faziam sentido.
Em uma das raras vezes quando fora com sua mãe para a cidade grande, e andara em uma das esquinas conturbadas e mentalmente desgastantes para ele, se lembrara de ter ouvido algo muito parecido em uma bicicleta velha e sem cuidados com suas engrenagens e rolamentos, mas como seria possível? ele nunca tinha se enganado antes. Em um ato de pura ansiedade, cravou seu machado, no tronco que servia como base para o corte da lenha, e aguardou, espichou-se na direção da cerca branca que delimitava as fronteiras de sua casa, olhou fixamente para a rua de terra batida, de onde o som parecia surgir, e na cabeça dele, quase que torcia para uma bicicleta velha não emergir da colina. Alguns segundos depois, uma pequena e antiga bicicleta apareceu subindo o cerro, imediatamente seu coração disparou, ele tinha se enganado pela primeira vez.
Tudo que ele viu, foi tão breve, em menos de um segundo ele decretou que estava errado, ele só precisava saber se era realmente uma bicicleta, e de fato era, abaixou a cabeça, e por um breve momento pensou em pegar seu machado e voltar a fazer o que era obrigado todo fim de semana. Por alguns segundos, nem percebeu, que pedalando, uma garota de pele pálida, rosto fragoroso, ombros agudos, bustos retumbantes, e silhueta uníssona, tinha como destino, a porta que não ornava com a cerca branca que a envolvia. Quando levantou sua cabeça, a viu segurando um jornal com sua mão e com a outra abrindo a caixa de correios, que o mesmo acabara de pintar a menos de um mês. Sorrindo apenas com os olhos, a garota que tinha acabado seu maneio, olhou para o menino, visivelmente espantado, e em um gesto inconsciente de valência disse:
-Olá, apenas um breve e singelo, olá, ao mesmo tempo que virava seu corpo para se dirigir, muito provavelmente para a próxima casa, que não era perto.
Ele abriu a boca quando a menina estava completamente de costas, tentou falar qual quer coisa que sua cabeça pensara no momento, nada conseguiu dizer, ele ficou exatamente dois segundo com com seus lábios longe um do outro. Em um delay jamais sentido, a palavra que a bela garota, o simples olá, que foi dirigido a ele, encharcou e impregnou seu corpo em uma onda de caprichados filetes em tons de vermelho e rosa claro, tão singular que o paralisou. [Continua…]